Quotidiano Lx: gorda no metro 6ª à tarde
appa writes on 06.Aug.06 at 10h38
ugly fat woman

Campo Grande. Aguardo o metro da linha amarela. Para além do vómito audiovisual da MCO TV, agride-me os sentidos uma gorda feia, chinelo no pé, pensos rápidos na mão, ar canalha. Ar de quem se sabe canalha e se rebola de gáudio nesse saber. Não há redenção. Ar de cigana romena. Sim sou xenófobo. Sobretudo se as estrangeiras são feias. Mas por outro lado não sou. O Verão traz muitas coisas más. As principais são o excesso de calor e as gordas destapadas que na rua nos agridem a vista.

Pergunto-vos se haverá visão mais terrífica que uma gorda de camisola de alças e umbigo à mostra? Pior?

Quotidiano Lx: lúbrico no metro 6ª à noite
appa writes on 21.Jul.06 at 03h03
James Mason in Lolita by Kubrick

Na carruagem quase vazia, com as patas em cima do banco defronte. Entedio-me e vejo o meu reflexo no vidro. A minha já calva cabeça — sei já que vão dizer que sou velho, não é, é antes a testoterona em excesso — e a minha camisa aos quadrados tributo à minha vulgaridade imodesta, penteio as ripas do meu liso cabelo. Merda, tenho mesmo que arranjar um daqueles champôs que dão volume. Pareço um gato que caíu à água.

Marquês de Pombal, entrei no Rato. Um casalinho jovem de camones entra. Ela era lourinha, elegante, viçosa. A camisa de alças deixa ver um pouco de carne. Ahhh, como eu gostava de por as minhas manápulas naquela pele sedosa. Pasmo a olhar, como o lúbrico que sou. Eu que sou incapaz de abordar uma mulher, eu que titubeio perante o chefe, e baixo a bolinha...eu, eu gostava de apertar a pele dos braços delgados daquela menina deliciosa. Gostava de apertar tanto até que os meus dedos ficassem marcados na pele, até espremer a última gota de sangue das veias e artérias. Até ficar um grande hematoma, até chegar a septicemia, até à amputação, até à morte. Mas como sou um cobarde, fico e pasmo.
Para que serve a filosofia?
appa writes on 11.Aug.05 at 00h12
Michel de Montaigne

Para que serve a filosofia? Num mundo em que o "conhecimento" explodiu também a filosofia explodiu. Hoje o professor de filosofia trabalha em geral no seu turfozinho sem se incomodar com o resto. O imperativo categórico do publish or perish. Do publicar por publicar, da progressão na carreira docente universitária, da mistificação da investigação. São chagas que cobrem a epiderme do mundo do saber.

Mas nem sempre foi assim. Antes da professionalização da filosofia — ou da Ciência em geral — a filosofia era tida, não como um exercício de erudição balofa e estreita, mas como um pensar sobre o trajecto de cada um aqui em baixo. Como nos conduzir-mos: como viver.
O que está num design?
appa writes on 10.Jul.05 at 22h12
human head leonardo

Alguém disse que o plágio é a forma mais sincera de elogio. I wonder. Onde começa o elogio e acaba a falta de ideias próprias? Não sei.

O que sei é que em design, o objecto, ou o trabalho em apreço deve cumprir uma função.

Um logo deve num simples vislumbre transmitir uma profusão de ideias, sem ser necessário ler coisa nenhuma, sem ser necessário articular palavras. Na linguagem nada é inocente, num logo também não. A função do logo não é o de ser decorativo ou "giro"; é a de ser informativo e esteticamente agradável. Ou se parte de uma abordagem holística do problema ou acaba-se com uma coisa gira que não diz nada, ou diz exactamente o contrário do que se pretendia que dissesse. Começando da outra ponta obtém-se uma coisa se calhar informativa mas feia. E o feio é desagradável, ninguém gosta do feio. Eu pelo menos não gosto, e acho que estamos programados genética e socialmente para não gostar. O encanto com o feio é um equívoco romântico que ganhou pé com a abominável Popart. Mas não é inato: é incutido à força de muita indoctrinação pseudo-intelectual nas mentes mais permeáveis à verborreia do artspeak, que esvazia as entranhas em sucessivas vagas de disenteria verbal.
Coisas boas: back with a vengeance
appa writes on 03.Jul.05 at 13h51
Gene Tierney

Depois de meses de desleixo, de abandono deste espaço resolvi deixar-me de mandriar, e dar-lhe a atenção que merece.

Recomeço com uma foto de uma diva minha. A actriz Gene Tierney. Perguntaram-me uma vez se é possível alguém se apaixonar por outro sem uma presença, sem estar face a face. Hmmm, diria que não que estas coisas do amor requerem a presença física, a química tem que estar lá, tem que haver um farejar mútuo. Mas depois lembrei-me dessa obra prima do Cinema que se intitula Laura — a musa de Petrarca também se chamava Laura. O mestre Otto Preminger cria em nós uma atracção inexorável por essa mulher que só surge na segunda parte do filme, e que até aí só conhecemos por via de um quadro e de flashbacks que outros contam. Quando ela surge estamos já completamente rendidos. É impossível evitar estar apaixonado por ela. Os planos, o ritmo, a montagem, a luz, tudo cria em nós um irreprímivel desejo dessa mulher que só se conhece pelo que outros contam e por um quadro.

The Maltese Falcon: the real jewel is love
appa writes on 01.Jul.05 at 20h26
The Maltese Falcon

I've seen for the first in a cinema John Huston's debut as a director: The Maltese Falcon. For Huston's films that I've seen at the cinema, this is the one I like the most, after The Treasure of the Sierra Madre.

From a formal point of view, I prefer the Treasure, because I notice the camera a lot less. But there are some magnificent cinematic moments, like when Sam Spade — played by Humphrey Bogart — answers the phone and the death of his colleague is announced by Detective Tom Polhaus — Ward Bond —, we see the alarm clock, the open window, with the curtain flowing to the wind that enters through the window. Or the many uses of the reverse shot, to make the point of view of the character more close to the viewer.

Le Bassin de JCM
appa writes on 07.Feb.05 at 23h58
Joao Cesar Monteiro

Mais de dois meses se escoaram desde que escrevi aqui pela última vez. Vou dar mais atenção a este blog.

Para os mais distraidos. Na Cinemateca Portuguesa uma retrospectiva integral do maior realizador de sempre do cinema luso: João César Monteiro.

Oportunidade de ver a obra completa deste autor. Desde o simplesmente belo e subtil Sophia até ao testamenteiro Opus Magnum Vai e Vem, passando pelo radicalmente genial Le Bassin de JW — o meu favorito.
Liberty Valance is dead: long live Liberty Valance
appa writes on 02.Dec.04 at 22h51
The Man who shot Liberty Valance

A week almost has elapsed since I saw The Man who Shot Liberty Valance. It is John Ford's last western. I cannot avoid to view it as an allegory about Hollywood and the closing of a glorious cycle: that what later came to be know as classical american cinema.

Cinema had now a big "competitor": television. It was no longer the first public form of entertainment. The small flickering screen in the living room was emptying the large dark room. What was once a ritual occasion became a vulgar thing. Until we arrived at our days where TV is everywhere, making silence run for cover while the vomited refuse concocted by a few media conglomerates is fed in elephantine doses. But I digress, after all I'm using my time to say something about this film: a masterpiece. Furthermore John Ford's view is not bitter. He accepts the new times, and declares himself a member of the old (dis)order.

Sex, Violence and Cartoons: Phil Mulloy
appa writes on 01.Dec.04 at 18h32
phil mulloy's cowboys

Descobri a passada semana — cortesia do Cinanima e da Culturgest — o cineasta Phil Mulloy.

Há muito tempo que não via nada de tão radical, no bom sentido do termo. Uma sátira mordaz, sem concessões.

Recomendo vivamente o visionamento dos seus filmes. Eu estou curioso em saber o que estará num filme como The Sex Life of a Chair, ou a série The Ten Commandments.

Já Nietzsche o dizia: Ridendo dicere severum — rindo se diz o que é severo.
O estratagema do amor: Sade monocórdico
appa writes on 25.Nov.04 at 00h01
Marat-Sade RSC performance directed by Peter Brook

Assisti a passada segunda feira à ante-estreia de uma curta-metragem medíocre na Cinemateca intitulado o O Estratagema do Amor inspirada num conto do Marquês de Sade Augustine de Villeblanche ou Le stratagème de l'amour. Realização de Ricardo Aibéo para a Filmes do Tejo.

Em que é que o o filme falha?